Não sei o que seria de mim sem um sábado em que leia a crónica Impressão Digital de José Manuel dos Santos…Simplesmente fantástica…Aqui ficam excertos das últimas, todas geniais:
Regressámos de onde as férias nos disseram que a felicidade é uma oportunidade que a vida dá a si-mesma e encontrámos o nosso eterno retorno privativo(…) Mesmo quando, no fim das férias, precisamos de férias das férias e voltamos com livros que levámos para ler e nem abrimos, essas pequenas derrotas foram a vitória da nossa liberdade, da nossa vontade, do nosso alheamento, do nosso sono. Neste regresso, em que queremos acreditar que tudo vai mudar, já sabemos também que, pouco a pouco, quase sem darmos por isso, tudo se vai tornando igual ao que era e voltará a acontecer o que queríamos evitar. Não importa: a vida é feita de falsas partida e de chegadas fictícias. É feita de ilusões desfeitas, de intenções quebradas, de planos mortos. De tédios interrompidos, transformado, recuperados. Saber isso é saber que a perfeição só nas férias nos é dada, porque apenas nas férias ela não nos é pedida.
Não dormi. Toda a noite soou o silvo do vento e eu ouvi nele o uivo da minha vida. Quando amanheceu, corri pela floresta. Vi ramos partidos, mas encontrei a calma que sucede às grandes agitações. E toquei com as mãos uma luz fria que atravessa as folhas e entrega ao chão a sua clareza. Dei voltas e voltas até me esquecer de mim e, quando me julgava perdida, achei a árvore que me guiou os passos. Foi sempre assim na minha vida: o mundo exterior, com os seus perigos, mais propício do que o mundo interior, com os seus tumultos (…) Hoje, o vento anunciou uma luz mais pura do que a minha solidão. Eu olhei-a e não sei dizer se ela pertence à noite, se ela pertence ao dia. Mas sei que, em breve, como no cinema, essa luz será o meu corpo.
o calor é uma fera enfurecida que se lança a nós com os seus dentes claros e mordazes. O corpo foge-nos, mas não há lugar para onde essa fuga vá. Sob a solidão do sol, o que vem dele é uma treva de luz que fere e cega. Tude levita num repouso agitado, denso, ameaçado. No cume do calor, quando nem para os mortos há sombra, o mundo é uma fotografia tremida, num espelho embaciado, um lodo lento.
Vivo rodeado de papéis, cercado pelo que leio e pelo que escrevo: livros, cadernos, cartas, revistas, blocos de notas, jornais, folhas soltas. Olho esse movimento imóvel de que sou o centro e há dias em que sinto o meu poder sobre ele ameaçado. Gosto de guardar palavras, de coleccionar frases, de juntar textos. E tenho por hábito registar uma citação, copiar uma passagem, escrever uma comentários, apontar uma reflexão (…) Observo com os papéis a mesma lei livre que pratico na vida(…)Vivo devorado por palavras de vida e de morte, sabendo que elas são o prolongamento da minha agitação e do meu repouso.
As imagens são o alfabeto da infância e a estrada que nos leva até lá. Naquela fotografia, eu, que ainda não sei que sou, estou nos braços da minha mãe. (…)Ao escrever, neste momento, acerca das fotografias do meu reinado sobre a terra, não estou a olhá-las: estou a lembrá-las. Porque de tanto as ter visto, vejo-as, mesmo sem as ver (…) Sei que mostrar aos outros, fora do amor, as nossas fotografias passadas é forçar o intransitivo a transitar. E lembra os serões em casa de alguém que nos põe nas mãos as fotografias do casamento, ou da última viagem ao Brasil. Vêmo-las sem as ver, e nos que dizemos há um constrangimento afável e o cansaço de uma obrigação verbal a cumprir: são bonitas, são bonitas!! Mas a uma fotografia alheia só se responde bem com uma fotografia própria. Olhem, pois, o vosso primeiro rosto e digam se não sentem a felicidade triste de quem se despede do mar.