Tuesday, July 3, 2007

dá que pensar…

O que é que falta a uma obra, por exemplo a um vaso, para que se torne uma obra de arte? A resposta (…) é o vazio.

Se não há vazio (que é em redor do objecto) então não pode haver singularidade do objecto. Se não há vazio na cabeça e no corpo do autor nós não podemos pensar que ele vai poder criar quaquer coisa.

Ora, isto leva-nos a pensar que há um ritmo no vazio (…), que o próprio vazio está no ritmo. Se pensarmos o que é o ritmo , diferente da cadência, que é uma batita sempre regular enquanto que o ritmo tem uma irregularidade, quer dizer que [o ritmo] pode admitir e produzir outros ritmos  dentro de si e então temos de admitir o vazio.

Não pode haver uma boa relação entre duas pessoas se não se produzir um vazio entre as pessoas porque esse vazio é a condição para que cada uma delas apareça por si e possa estabelecer uma ligação, comunicação com as outras pessoas.

(José Gil, filósofo)

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Monday, July 2, 2007

Porque somos pessoas

…Porque somos pessoas, quer dizer, porque ascendemos a uma certa percepção do mundo num contexto de relação minimamente cuidadora e disponível, estamos sempre atentos e expectantes à possibilidade de um mágico regresso a umas origens míticas em forma de compromisso securizante, definitivo e inviolável…

…Mas porque crescemos num mundo plural e nos fomos cruzando com muitos modelos que fomos significando por razões diversas, quando não opostas, damo-nos conta de que todos os compromissos são o que são e duram o que duram…

…Neste contexto, que é o nosso, e com que vamos lidando, às vezes com espanto, outras com deleite, outras ainda com preocupação ou frustração, acabamos por acalentar sonhos que não dizem com nada. Desejamos ter alguém, ser de alguém, pertencer a um tempo, um lugar, a um modo de vida que seja eterno ou pelo menos nos dê a ilusão de eternidade…

…Tanto desejo acaba, como de costume, a ser verdadeiramente contraproducente…

…Exactamente porque somos pessoas, temos a estranha reacção de temer aquilo que mais desejamos, de fazer dos nossos compromissos ameaças de aprisionamento de que fugimos…

…Depois, queixamo-nos do mundo…

(Isabel Leal in NoticiasMagazine)

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os rostos ausentes

…Viver é dizer a vida com palavras que a não dizem. E é continuar a perder o paraíso perdido à nascença. É acrescentar e diminunir, em somas acompanhadas de subtracções que, para nós, acabam sempre em zero. Viver é olhar o nada no tudo…

…Viver é ouvir a voz dos outros em nós…

…A grande honra que está à altura da vida que morre é dizer, como se diz no final do “Inominável”, de Beckett: “Tenho de continuar, não posso continuar, vou continuar.” E no lá fora da vida, o sol levanta o seu sereno esplendor para a iluminar, mesmo quando já não ilumina o nosso rosto ausente…

(José manuel dos Santos in ActualExpresso)

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Thursday, June 28, 2007

incerteza

…A incerteza dos acontecimentos,é sempre mais difícil de suportar do que o próprio acontecimento…

(Jean-Baptista Massilion)

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Friday, June 8, 2007

Vivemos de Palavras

 

Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita: - Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! - Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto?

Raul Brandão, in “Húmus”

 

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Friday, May 11, 2007

o sentido comum

… o sentido comum é o menos comum dos sentidos …

… o ser humano “pseudo-intelectual” dá-se ao trabalho de complicar tudo e de tentar ver tudo através das “lentes” científicas, quando o verdadeiramente complicado é ver as coisas tal como elas são…

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Wednesday, March 28, 2007

diz-me tu quem és agora?

Miguel Guedes (vocalista dos Blind Zero) brinca quando queremos saber o que mudou com a idade. “O Palma tem uma frase, ‘diz-me quem és tu agora?’ Eu sou isto: sou um pouco claustrofóbico em relação ao mediatismo que, às vezes a vida toma, e ao carreirismo, à visão única e à especialização. Caramba, nós temos uma média de setenta e tal anos, vamos especializar-nos em quê?”

 

Expresso Actual, 17 de Março de 2007-03-28

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Thursday, January 11, 2007

A escrita

“A escrita nasceu da necessidade de não esquecer. Claro que para chegar ao papel e ao lápis tivemos que passar pelo rabisco na parede da caverna, pelo hieróglifo cravado na tabuleta de barro, etc. Mas a angústia primordial foi a de não perder o pensamento fugidio.

Imagine quantas boas ideias não desapareceram para sempre por falta de algo que as retivesse na memória e no mundo. A história da civilização teria sido outra se, antes de inventar a roda, o Homem tivesse inventado o bloco de notas”.

(Luís Fernando Veríssimo)

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Monday, October 2, 2006

Por falar em coerência…

“A única coerência que podemos achar é a de sermos um coisa e o seu contrário ao mesmo tempo.”

Agostinho da Silva

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