Sunday, September 7, 2008

lindo…

“Não sei de amor senão o amor perdido
o amor que só se tem de nunca o ter
procuro em cada corpo o nunca tido
e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido
de tanto te encontrar e te perder.

Não sei de amor senão o não ter tido
teu corpo que não cesso de perder
nem de outro modo sei se tem sentido
este amor que só vive de não ter
o teu corpo que é meu porque perdido
não sei de amor senão esse doer.

Não sei de amor senão esse perder
teu corpo tão sem ti e nunca tido
para sempre só meu de nunca o ter
teu corpo que me dói no corpo ferido
onde não deixou nunca de doer
não sei de amor senão o amor perdido.

Não sei de amor senão o sem sentido
deste amor que não morre por morrer
o teu corpo tão nu nunca despido
o teu corpo tão vivo de o perder
neste amor que só é de não ter sido
não sei de amor senão esse não ter.

Não sei de amor senão o não haver
amor que dure mais do que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer
só esse é que não morre de tão perdido
só esse é sempre meu de nunca o ser
não sei de amor senão o amor ferido.

Não sei de amor senão o tempo ido
em que amor era amor de puro arder
tudo passa mas não o não ter tido
o teu corpo de ser e de não ser
só esse meu por nunca ter ardido
não sei de amor senão esse perder.

Cintilante na noite um corpo ferido
só nele de o não ter tido eu hei-de arder
não sei de amor senão amor perdido.”

Manuel Alegre.

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Wednesday, January 16, 2008

Beijo…

Um único momento,
Gravado no tempo,
Brilhando intensamente
Como uma estrela
No céu nocturno,
Um néon, um instante,
Um milhão de anos
Comprimido num,
Quando tudo pára
E a vida explode
Em sonhos infinitos,
E tudo se altera
Para sempre,
Num abrir e fechar de olhos.

(O beijo - D. Steel)

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Monday, July 30, 2007

Vou onde o vento me leva…

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer…

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

                                                (Alberto Caeiro)

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Friday, April 20, 2007

shuuuu

silêncio? O que é silêncio?
uma palavra inventada pelos ouvintes?
explica-me tu, o que é o silêncio?
olhas-me assim?
a viver no silêncio?
ser Surda é ser Silêncio?
vou ao dicionário, folheio nas últimas folhas
vou ao “S”…. encontro “Surdo”
“que ou aquele que não ouve”
sou aquele que não ouve?
é assim que me vês?
vou ao “silêncio”
“ausência de ruído”
ruído? O que é o “ruído”?
mais uma palavra do ouvinte.
não, desconheço o silêncio
desconheço o ruído
desconheço estas palavras.
simplesmente, não ouço?
ouço sim, ouço as minhas mãos, ouço as tuas
as minhas mãos é que são a minha voz
são elas que fazem encantar
são elas que fazem escrever estas palavras
são elas que fazem gestos,
sabes o que é o gesto?
gestos são palavras esculpidas.
mas silêncio e ruído
desculpe mas não os conheço!

 

Marta Morgado, Associada da APsurdos

 

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Wednesday, March 14, 2007

Que música escutas?

Que música escutas

tão atentamente

Que não dás por mim?

Que bosque, ou rio,

ou mar?

Ou é dentro de ti

Que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,

Dizer-te apenas

que estou aqui…

Eugénio de Andrade

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Thursday, February 1, 2007

Fiama Hasse P. Brandão

Até ao fim da minha vida haverá sempre

na face das encostas uma nascente.

Depois da minha morte ainda haverá

quem beba na colina a água  nascer.

Quatro elementos hão-de ficar aqui

até ao tempo do Fim.

 

A poesia de Fiama tem a capacidade de dar a ver o Todo em tão pouco. Nela, as palavras não estão: são. E são pesadas nessa balança ágil e frágil que está no centro da arte poética.

Como disse Eduardo Lourenço, à poesia não falta reconhecimento, apenas que comece a ser lida.

Expresso 27.01.07

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Olhar, apenas vendo

Tu, místico, vês uma significância em todas as coisas

Para ti tudo tem um sentido velado.

Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.

O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa.

 

Para mim, graças a ter olhos só para ver,

Eu vejo ausência de significação em todas as coisas,

Vejo-o e amo-o, porque ser uma coisa é não significar nada,

Ser uma coisa é não ser susceptível de interpretações.

 Alberto Caeiro - Fernando Pessoa

 

Seria bom se fossemos capazes de olhar para as coisas apenas vendo, isentos de qualquer pensamento, não seria? Mas esse é o preço que o Ser humano tem que pagar pela sua racionalidade…Falta saber se vale a pena pagar tanto por tão pouco… 

 

 

 

 

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Tuesday, January 9, 2007

Check-In

Não me importa entrar pela porta arabescada
Do desespero
Descer
Inferno
Destempero
Desequilíbrio
Certas cordas sem rede de protecção
Fogo
Carvão
Súcubos
Exus
Sereias amaldiçoadas, super-heróis do avesso
Nada disso me assusta
Se tiver certeza de que na saída
Eu estarei do lado de fora esperando por mim.

                                                                                                    (Greta Benitez)

 

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Thursday, October 19, 2006

espero

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

              Sophia de Mello Breyner

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a busca de um bem..

Se tanto me dói que as coisas passem
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
 Sophia de Mello Breyner Andresen
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